segunda-feira, 28 de julho de 2008

As Rotas do Crime

Na verdade, o tráfico de haxixe que vem de Marrocos (o maior produtor mundial), segue em direcção ao norte, tendo como últimos portos de mar localidades situadas no País Basco (Fuenterrábia e Irún). Daqui, a droga segue por via terrestre para países da Europa Central, desta vez com recurso a trailers e autocaravanas com fundos falsos. Estes transportes possuem as matrículas viciadas e os documentos são igualmente forjados. Mas, antes desses cargueiros chegarem a essas localidades portuárias do País Basco, vão abastecendo ao longo das costas portuguesas e espanholas as tais voadoras e, em alguns casos, embarcações de pesca. No entanto, o mercado comercial preferencial destes navios-mãe está voltado para as zonas do Minho (de Esposende à Foz do Minho) e Galiza. Umas vezes haxixe, outras juntando haxixe e tabaco, outra só tabaco. Tudo depende das perspectivas do mercado...

O que é mais evidente é o facto do mercado negro, em ambos os países, estar de tal modo organizado que consegue iludir as próprias autoridades o que leva a pensar ser impossível que, nos últimos anos, algumas delas não tenham sido compradas! E se não, vejamos...

A viagem do tabaco é complicada! Os Winstons, por exemplo, são enviados desde os EUA para a Alemanha (Hamburgo), Bélgica (Ambéres e Antuérpia) e Suiça (Basileia). Outras vezes, por conveniência de serviço, são enviados para Inglaterra (Liverpool), evitando entrar em qualquer um dos países anteriormente citados. Neste caso, a viagem seguinte, a de abastecimento às lanchas, tem como destino o norte de Espanha e Portugal. A cabeça deste polvo está sediada na Suiça, já que ali este tipo de comércio não é considerado contrabando ilegal. Daqui passam em contentores e por via terrestre para a Bulgária, onde empresas estatais que colaboram na fraude trocam os papéis das mercadorias. Aqui neste país, é fabricado também tabaco americano sob licença. Na etapa seguinte, torna-se extremamente difícil para as autoridades ocidentais conseguir controlar a quantidade de caixas que dali saem sob a capa de uma mera operação comercial de exportação. Com os papéis legalmente preenchidos, os mesmos trailers, mas agora acompanhados de outros tantos de empresas de Leste, iniciam a viagem de regresso. Institucionalizando-se um vaivém entre países que se deparam pela frente. A finalizar este percurso terrestre, eis-nos nos portos de Ambéres ou Antuérpia e Hamburgo. Sempre com os contentores em trânsito e selados, e por isso não devidamente fiscalizados, estes são metidos dentro dos grandes cargueiros das organizações que vão, para todos os efeitos, ser os tais navios-mãe a que já fiz referência. É a partir daqui que começa a fase marítima. Estes navios-mãe têm como pontos de destino águas internacionais ao largo do norte de Espanha, Portugal, sul de Espanha e ilhas Baleares. Aqui, termina a rota do tabaco e começa a da droga, fazendo-se o regresso da mesma maneira (agora com haxixe e, nalguns casos, também cocaína. como à frente denunciarei).É que, efectivamente, os portos marroquinos são outro paradeiro destes cargueiros, principalmente Ceuta e Tânger. No entanto, vezes há em que os norte africanos se mostram mais solícitos e, num gesto de invulgar sensibilidade comercial, fazem os transbordos de haxixe dos seus barcos de pesca para os mercantes, em águas internacionais, no Estreito de Gibraltar. Para os navios-mãe isto é óptimo já que, deste modo, evitam as suspeitas das autoridades europeias... Ainda recentemente tivemos oportunidade de apreciar uma larga reportagem elaborada pela TV-Galiza sobre este tema, em que nos mostrava imagens elucidativas. É que, ao largo das nossas costas e águas internacionais, aparecia o cargueiro LIBERTYMOON (panamiano), carregado com mais de 100 toneladas de haxixe!!!! Mas, prossigamos a nossa rota...

Com haxixe e o tabaco que por ventura tenha sobrado, os navios-mãe aproveitam ainda o Estreito de Gibraltar para outros transbordos do mesmo material. Como? Há ainda uma outra rota a que não fiz referência: na Bulgária, como já se disse, o tabaco é ali fabricado sob licença. Deste país vem por via terestre ou marítima para a Grécia (Piréu), que por sua vez segue em direcçãoao sul de Itália, Sicilia, Ilhas Baleares e Estreito de Gibraltar. Com0 estes enormes cargueiros têm a bordo potentes guindastres, encontram-se em águas internacionais e passam os contentores com facilidade para outras embarcações. Ou seja: os navios-mãe que vieram da Bélgica e da Alemanha, ou mesmo de Inglaterra, vão descarregando pelo caminho de tal modo que, quando chegam ao Sul de Espanha estão quase vazios. É aqui que aparece o reabastecimento a que aludi. Agora com o tabaco vindo da Bulgária, via Grécia, e com o haxixe de Marrocos, estes supermercados estão aptos a encetar uma nova cruzada.Vezes há, ainda, que ao Estreito de Gibraltar chegam outros cargueiros vindos do Panamá com carregamentos de cocaína, como mais lá para a frente citarei com provas mais que evidentes. E quando isso acontece, os tais navios-mãe, recebem-na de braços abertos. Para que o leitor possa ter uma ideia do intenso movimento marítimo que regista esta zona sensível, estou apto a dizer que, entre as nossas ilhas dos Açores e o citado Estreito, passam mais de 400 embarcações por dia... Terá a Espanha capacidade e meios para poder controlá-las, dado que este movimento é feito, principalmente, em águas internacionais? E Portugal? Nem valerá a pena abordar tal...

O certo é que, feito o reabastecimento, estes cargueiros do narcotráfico iniciam a viagem de regresso, voltando a reabastecer as nossas costas e galegas, terminando o seu percurso ilegal ao largo do País Basco, onde ficam as últimas encomendas. Enquanto estes, vazios, voltam à Bélgica e a Alemanha, para novas operações, a droga que chega a Irún e Fuenterrabía segue por via terrestre, através da França, com destino a uma série de países da Europa Central (principalmente a Holanda). Estas são, na verdade, as rotas do crime à mais alta escala, embora, lá mais para a frente, tal como prometi, citarei exemplos que falam por si...

2 comentários:

Paulo Jorge Dias disse...

Será que ainda encontro o livro à venda? Perdi o meu exemplar do Minho Connection e não o encontro em livrarias ou alfarrabistas. Se alguém souber onde o encontrar...

MFreitas e TMota disse...

Tenho um exemplar disponível 936270226